CIDADE FUTURO COMUM
Introdução
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer o convite para participar neste debate sobre a cidade e o seu futuro comum.
Devo confessar, sem qualquer pudor ou preconceito, que a minha inquietação sobre o desenho de cidade é enorme. É enorme porque quanto mais leio, mais dúvidas tenho. Quanto mais vivo, menos certezas afirmam as minhas convicções e quanto mais debato, mais acesa se torna a minha desconfiança sobre a possibilidade de uma única verdade que possa dominar a cidade, o país ou o mundo, sobre qualquer problema que atravesse. Por outro lado, tudo aquilo que aqui poderemos debater já está escrito em “A Beleza de Um Corpo Nu”. Uma obra ensaio-manifesto, onde nos é oferecido um quase tratado de como resolver a urbe, e pode ser vista, ao mesmo tempo, enquanto uma obra de uma enorme ambição quase utópica, devendo inspirar a administração local e o poder central.
Sobre esta obra podemos elencar uma vastidão de referências, desde juristas, economistas, escritores, arquitetos, urbanistas (os urbanos e os “anti urbanos”), filósofos, uma esta lista infindável, de gente enorme, descrita, estudada e refletida, com uma profundidade difícil de igualar.
Ficamos bem informados sobre as várias histórias das cidades, tais como Paris de Haussmann, Barcelona de Cerdá. Viena de Wagner, as cidades jardim de Howard, a cidade linear de Soria y Mata, Amesterdão, Madrid, as cidades industriais europeias, as cidades italianas do pós-guerra, Roma, as cidades industriais inglesas e Londres, o subúrbio de origem francesa, as cidades americanas e uma forma de vida que viria a ser chamada como “sonho americano”. As redes viárias, a expansão e o negócio do automóvel, as cidades do neolítico, o SAAL em comparação à cidade burguesa no caso Português.
Esta é a obra de uma vida, de quem pensa e sente cidade, desde sempre.
Está aqui tudo, e mais, seria difícil.
Não posso dizer que compreendo tudo, que me familiarizo com todos os autores, pois apenas partilhamos verdadeiramente cinco: Santo Agostinho, Fernando Pessoa, Guy Debord e não tanto Raoul Vaneigem, Paul Virilio e Annah Aendt. Tivemos visões literárias semelhantes (em épocas distintas), com Sócrates, Platão, Aristóteles e os Situacionistas, mas temos em comum, menos de 10% dos autores citados nesta obra. Pelo fruto das circunstâncias e por focos de interesse distintos.
E é por isso, que insisto, tenho pouco a dizer.
Mas escrevi um texto. Que é apenas um diálogo entre mim e este livro.
Esta cidade morreu? Talvez, sem funeral, velório ou aviso prévio. Virilio fez essa previsão: a cidade morreria e com isso arrastaria a lenta dissolução da democracia. O abandono da urbanização é, segundo o arquiteto filósofo, um “estado-destino”, sem Estado e sem cidade”. Segundo Bandeirinha, “a democracia representativa, não tem um só inimigo, tem dois: a ditadura e a dissolução da cidade.”
As cidades sofreram uma mudança de paradigma a partir da Revolução Industrial, mas desde aí, até hoje, talvez não seja a sua própria definição um problema. Tal como a questão da identidade não é um problema per si. As cidades não precisam de ter identidade. Precisam de ser. Quanto mais procuramos a identidade de alguma coisa, mais forçamos a sua artificialidade. A ideia de ter uma identidade forçada é também hegemónica: na cultura, na arquitetura e nas vivências. Principalmente a identidade visitável, mercantilizada pela cultura de massas, pois nela já não habitam cidadãos eleitores, mas apenas turistas, estudantes ou outros habitantes sazonais. Quando a cidade está vazia dos seus habitantes, fica vazia de significado.
E não podemos “recentrar a cidade no seu significado de sempre!”, pois este “sempre” não existe, porque a cidade é mutável. E até pode morrer.
Numa primeira instância, podemos pensar que através da publicidade onde aparece uma ideia de felicidade e da vida perfeita, aliada ao capital, que esta dupla conquistou a construção do subúrbio e se juntou à ideia da morte da rua com o Movimento Moderno. Foi primeiramente uma ideia de modelo de vida, que esvaziou os centros urbanos.
Mas agora, não sei se os urbanos estão cansados das suas ruas, praças e avenidas. Não sei sequer se são suas. Talvez estejam cansados da falta de uma política que os integre. As cidades atuais não são acessíveis e tornaram-se um palco de espetáculo, tal premonição Situacionista, onde só alguns podem pagar bilhete para assistir.
Para desmistificar o desenvolvimento capitalista da cidade, que é uma realidade nos tempos que correm, são necessárias políticas urbanas. É urgente entender a hierarquia: quem desenha, quem paga, quem constrói, quem promove a política da cidade? A reabilitação das áreas urbanas centrais é fundamental, mas não a qualquer custo político e social.
Uma cidade que nasce sobre a desigualdade, para mim, por mais que seja cidade, não é válida.
À equação da morte da cidade, acrescento o individualismo. Num tempo de aceleração sem precedentes, num espetáculo contínuo e de alienação coletiva, como de resto referia Debord, o espaço tempo foi substituído pelo espaço-máquina, como anteveria Virilio. Nesta circunstância, devemos pensar acima de tudo, naquilo que permanece e não naquilo que mudará no nosso futuro da cidade comum. A vida mítica, a vida publicitária, ou a artificial, em comparação com a vida real, tem ainda uma força que devemos contrariar.
“A autonomia da vontade enquanto supremo princípio da ética” (kant)
Concordo que é preciso avaliar a importância da cidade na democracia contemporânea e ver a cidade como Rossi, onde “o objeto cidade e o objeto casa, passam a ser entendidos como contentor e conteúdo.” Segundo Bandeirinha “a urbe é o espaço físico onde se desenvolve a cidade e a civitas é o modo próprio de organizar politicamente a vida urbana”. Mas se estes dois não estiverem ligados, não funcionam. Podemos ter um aglomerado de construções urbanas bem desenhadas e mal administradas, e uma boa administração sem urbanismo. Isoladamente, nenhuma delas irá beneficiar do espaço público e, por consequência, da democracia. E assim, é certo, a rua morrerá.
Para Bandeirinha, uma cidade urbana deve ter 7 princípios: a densidade, os usos mistos, o respeito pela esfera pública e privada, a centralidade política e administrativa, a sua transformação, a banalidade no traçado regulador e a autonomia da arquitetura.
A mim, parece-me um bom corolário, mas que por si só, não chega. Tem de haver desenho, o projeto tem de ser fator principal. Podemos densificar mais o centro histórico e toda a cidade com limites bem definidos, mas para isso, temos de criar condições e saber demolir aquilo que não permite uma ventilação cruzada, uma insolação necessária, em suma, uma salubridade desejada. E isso não pode ser previsto em traçados reguladores nem em Planos Municipais.
E não querendo ser uma “ecologista de meia tijela”, os corredores verdes são fundamentais. A cidade não pode ser ilimitada, mas sua densidade tem de ser compensada. A “renaturalização” das cidades não tem de ser por natureza uma coisa “anti urbana”, porque para além de contribuir para baixar a temperatura em épocas excessivas, é fundamental para a qualidade do ar e para uma boa qualidade de vida. A crise climática não é uma histeria coletiva. Deve haver um equilíbrio justo e necessário para a condição humana. Da terra viemos, à terra voltaremos e não seremos capazes de viver em conjunto sem uma mediação além da construção. A natureza é sim, fundamental.
São importantes as escalas da cidade e do território, em sintonia com a escala da arquitetura. Mas a escala humana e a escala da sua vegetação, não podem ser nunca desprezadas no desenho de cidade.
Conclusão
Muitas foram as cidades que morreram, mas, cada uma delas terá a sua consciência própria. Se a cidade tem consciência, tem também memória coletiva. As cidades podem ter mesmo “alma”, que pode muito bem, segundo Italo Calvino, ser composta pelas almas dos seus habitantes. Mas que não morre, diria, mesmo quando eles desaparecem. Como se viu na Pandemia em 2019, as cidades mesmo desertas, mostravam a sua dureza poética, com os seus fluxos vazios sem pessoas com pressa de ir e voltar.
Não acredito numa ideia de felicidade, mas acredito numa ideia de paz. Sabemos que é muito mais difícil conquistar a paz do que ganhar a guerra. A guerra faz-se com destruição. A paz faz-se na reconstrução. Mas a construção de uma cidade, ou a sua reconfiguração, poderá basear-se numa memória do passado, na infância que todos procuramos quando perdemos o norte?
Sobre Bernardo Soares, Bandeirinha escreve: “O que me atrai é o modo como a envolvente espacial da escrita se desprende do livro, como nos devolve também e nos faz viver cada momento em espaços verdadeiramente materializados. Vemo-los, sentimo-los, ouvimo-los. Não são páginas com letras nem paisagens românticas, não são personagens modelo em lugares idílicos, são espaços concretos. Vivemos neles, no espaço deles, pressentimos as distâncias e as proximidades, sentimos cada passo que damos, bebemos café e vinho, comemos e até conseguimos entrar no tempo próprio da descrição, mesmo estando dele separados por mais de um século”. Esta é uma descrição da escrita de Fernando Pessoa, em específico do livro do Desassossego, mas é, em simultâneo, uma passagem íntima pela “cidade infância” de José António Bandeirinha. Porque, segundo o próprio autor, “tudo aquilo que vemos nas cidades tem como ponto de partida referencial a cidade de onde partimos.” E acrescento, que só reconhecemos aquilo que conhecemos e assim, por natureza, só procuramos a nossa semelhança. Mesmo que não seja a mais acertada, é sempre o nosso encontro na “casa infância”. Como escreveu Herberto Helder:
“(...) Era uma casa – como direi? Absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
(...) Eu metia as mãos na água: adormecia, relembrava.
(...) Porque o amor das coisas no seu tempo futuro é terrivelmente profundo.
Suave. Devastador.” (Herberto Helder, Poemacto, 1961).
Luisa Bebiano
Convento de São Francisco, 9 de maio de 2026























































