I
«Das muitas coisas vedadas ao conhecimento dos Homens,
nada é menos inteligível que o coração humano.» (1)
Guerra, memória e arte
No dia 23 de novembro de 2024, tive a felicidade de ouvir uma entrevista ao escritor turco Burhan Sönmez (2) , no Fólio Festival, onde se falou do seu último romance: «Pedra e Sombra». Um livro sobre um deportado curdo, que o exército tornara militar depois da sua captura e consequente amnésia, dando-lhe um passado e um futuro. A história passa-se num percurso de uma vida que começa com «o caminho infernal de pés descalços, como fazem todos os deportados», onde ele se apercebe que não tinha memória. «Tu não tens memória da tua infância», diziam-lhe os soldados turcos. «E quem não tem memória, não pode conhecer-se a si mesmo». Então, para perceber quem era, «continuou a caminhar. Caminhou até ao fundo da sua existência, seguiu as estrelas, refugiou-se em Deus e leu todos os livros que encontrava para obter uma resposta. Deambulou por vários lugares do mundo e em cada lugar, adotou um nome e uma religião diferente». Quando morreu, entregou uma carta que pediu à vizinha que desse ao canteiro. E a carta dizia: «Confio-te a minha lápide. Dei por muitos nomes e adotei muitas religiões. No fim, não me resta nenhuma. (...) Dizem-me que fazes lápides consoante a alma de cada um. Talha uma para mim. E que a minha lápide diga à criação: “a única crueldade de Deus, é não existir”».
A sociedade sofre de uma amnésia que se espalha como uma pandemia. Daqui a pouco tempo, estão-nos a ser dadas novas histórias, novos discursos, novas retóricas e novas versões da História, convidando-nos a mudar o nosso próprio passado. A memória pode ser apagada por influência política ou social. Segundo Sönmez, «graças à criatividade humana, temos diferentes formas de manter a memória viva e a arte é uma das melhores maneiras de o fazer». Porque criar algo é aquilo em que assenta a evolução da humanidade. «E isso muda o mundo à nossa volta e muda-nos também.» A arte é uma forma de tornar a vida mais suportável.
Neste mundo, em que a extrema-direita usa o ódio como discurso político, estamos numa encruzilhada. Não temos tempo para nos indignar, nem para perceber o que se está a passar. Mas é importante termos uma posição, sabermos de que lado estamos. As pessoas que aqui estão, com as suas peças, decidiram fazê-lo. E com este evento, estamos a dar um exemplo, a posicionarmo-nos politicamente e a dar voz a quem precisa do nosso apoio: as pessoas precisam ser ouvidas. Uma das formas de exercer impunidade é manter a invisibilidade das vítimas. E compactuar com isso é ser parte de um sistema. Se as vítimas deixam de ser (ou não são) vistas, é como se não existissem. Mais, é como se nunca tivessem existido.
42 mil mortos, 95 mil feridos, 2 milhões de pessoas deslocadas, 80% das infraestruturas destruídas, 130 jornalistas mortos, o maior número da história, mais de 200 trabalhadores da ONU assassinados e um contexto de fome incalculável. Em Gaza. Ninguém pode dizer, agora ou no futuro, que não sabia. E podemos afirmar, sem quaisquer problemas de confrontos de retórica, que o início não foi a 7 outubro de 2023.
Dar visibilidade às vítimas não deveria ser uma responsabilidade de caridade ou compaixão individuais, mas uma responsabilidade coletiva. Parafraseando um poeta persa, da Idade Média: «O inferno não é o lugar onde sofres, é o lugar onde ninguém ouve o teu sofrimento».
A guerra é a maior insanidade do ser humano. É um jogo de tabuleiro onde ninguém sai vencedor. Leia-se a “Declaração Universal dos Direitos Humanos”, proclamada em 1948, e conclua-se que a guerra deveria ser proibida e que o que se passa em Gaza se assemelha ao fim da humanidade, onde há uma sub-humanização e uma desumanização evidentes.
II
«O levantar voo dos pássaros é sinal de emboscada» (3)
A arte da Guerra
A «Arte da Guerra», de Sun Tzu, para lá de ser um famoso tratado sobre táticas militares, é uma reflexão filosófica.(4) A guerra, segundo o autor, «é a continuação da política por outros meios». 2500 anos depois, há partes totalmente contemporâneas no que diz respeito à sociedade, à política e ao conflito armado.
Da mesma forma que Burhan Sönmez procura a sua existência na viagem, Sun Tzu indica que: «Aquele que conhece o inimigo e se conhece a si mesmo sairá vitorioso de cem batalhas; aquele que se conhece a si mesmo mas não ao inimigo, por cada vitória conquistada, conhecerá uma derrota; aquele que não se conhece a si mesmo nem ao inimigo, será derrotado em todas as batalhas».
Atente-se a outros dizeres da «Arte da Guerra»: «Toda a guerra é baseada no engano»; «Nunca um país beneficiou de uma guerra prolongada»; «Os soldados aprisionados deverão ser bem tratados. A isto se chama usar as forças inimigas capturadas para reforçar os nossos exércitos»; «Na arte da guerra o melhor é conquistar o país do inimigo inteiro e intacto. Arrasá-lo e destruí-lo não é tão conveniente»; «Vencer todas as batalhas não é a excelência suprema; a excelência suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem combater.»; «Quando cercar um inimigo, deixe-lhe uma saída. Não pressione em demasia um inimigo desesperado»; «O sucesso da guerra é conquistado quando nos adaptamos cuidadosamente aos objetivos do inimigo»; «Se o acesso ao acampamento é demasiado fácil, trata-se de uma emboscada».
Não há nada na «Arte da Guerra» que consiga comparar ao que se passa em Gaza, podendo concluir que não é de uma guerra que se trata, mas de um genocídio, num cume da desumanidade. Onde prosseguem a cegueira e a surdez, ou pior, a indiferença perante a barbárie assassina que Israel comete – diariamente – contra o povo palestiniano.
Segundo Noam Chomsky, «Parte da tragédia dos palestinianos é que não têm suporte internacional por uma razão: não têm riqueza, não têm poder, logo não têm direitos. E é assim que funciona o mundo. Os teus direitos correspondem ao teu poder e à tua riqueza. É assim na sociedade e é assim no teatro internacional das relações entre países. O que se chama de interesse internacional, resume-se aos interesses económicos. Mas não aos interesses da população. Essa, é a maior parte das vezes irrelevante e espetadora dos acontecimentos».
III
«Deixai toda a esperança, vós que entrais»(5)
O labirinto e o cinema n’A Divina Comédia
A Faixa de Gaza é, neste momento, um campo de concentração temporário e também de extermínio, sem tréguas até ao final. O que se passa é um tremendo horror, ao vivo, em direto e em streaming. Tal como indica Vasco Graça Moura, no prefácio da sua tradução da «Divina Comédia», os conflitos armados são um horror cinematográfico (6), com uma precisão exaustiva das indicações dos acontecimentos, numa «tensão vertiginosa entre micro e macrocosmos», tal como nesta guerra. O medo da escalada mundial é real, tal como a «busca obsessiva de uma verdade do Ser» na «Divina Comédia»(7).
Quando se diz que algo é dantesco, não falamos só de um processo moroso, mas de algo que nos remete para um Inferno. E ao percorrer o Inferno de Dante, o inquietante espetáculo do mal e do horror, provoca-nos o confronto inevitável com os universos do nosso tempo. Em ambos os lugares, em Gaza e na poesia de Dante, há uma constante ontologia entre o bem e o mal, numa fusão do real com algo tão grotesco que parece ficção. O poeta escreveu que, «o Inferno é um imenso oco em forma de cone invertido», é uma prisão labirinto de onde ninguém sai.
A descrição das Portas do Inferno parece o cenário de uma guerra, mas será a consciência atormentada de quem não toma partido ou de quem faz desta guerra, a mais injusta prisão do Inferno na Terra. Leia-se com atenção o que diz:
«(...)
E com a cabeça de erros só cingida,
eu disse “Mestre, que ouço? Pela dor,
que gente é esta agora assim vencida?
E ele a mim: “É o mísero valor
daquelas almas tristes em seu choro
que foram sem infâmia e sem louvor.
Vão misturadas ao molesto coro
dos anjos que não foram nem revéis (8)
nem fiéis a Deus, senão ao próprio foro.
Por mor beleza, o céu expulsa-os; eis
que acolhê-los, o Inferno não se atreve:
seriam a glória aos réus de eternas leis.
(...) »
A história dirá que, desta vez, o ocidente esteve do lado da morte, do extermínio, da injustiça e da brutalidade. E já não há muito que as Nações Unidas possam fazer, a não ser controlo de danos.
O que os cidadãos podem e poderão fazer, marca o lado em que estão. Eu estou do lado da Palestina. E não tenho qualquer dúvida quanto a isso. Estou do lado da paz e contra a retórica facciosa de uma defesa, através de um massacre coletivo, onde o silêncio das Nações se tornou demasiado ensurdecedor. Aquilo que faremos hoje é simbólico, mas, em conjunto, poderá ajudar a mudar alguma coisa.
Luisa Bebiano
Texto lido no Leilão Solidário “Palestina Meu Amor”, realizado a 30 de novembro de 2024
Agradeço ao Carlos Júlio a oportunidade para refletir sobre este momento.
Há algum tempo que o tema das guerras e da repressão são matéria de pesquisa, leituras e reflexões que faço diariamente. Por isso, escrevi este breve texto que reflete sobre a procura da existência humana.
NOTAS
(1) «Odisseia», de Homero
(2) A entrevista passou num programa da Antena 2, de Luís Caetano: «A força das coisas», no dia 23 de
novembro de 2024. Burhan Sönmez nasceu a 1965 e sobreviveu à prisão e à tortura. É um autor turco e curdo, e escreveu recentemente «Pedra e Sombra». Preside ao Pen Clube, que promove a liberdade de expressão de todo o mundo.
(3) «A Arte da Guerra», de Sun Tzu (544-496 a.C.), tradução de Miguel Conde, 2009, Bertrand Editora.
(4) «A Arte da Guerra» foi um dos primeiros livros na área da ciência política. Só Carl Von Clauseuwitz
(1780-1831) se pode comparar.
(5) Canto III da «Divina Comédia» em «As Portas do Inferno», de Dante Alighieri (1265-1321), tradução de Vasco Graça Moura, 2011, Edição Quetzal.
(6) Vasco Graça Moura sustenta que na «Divina Comédia» há uma «precisão exaustiva das indicações topográficas, aliam-se um não menos cuidado em alterar sucessivamente os ângulos de tomadas de vista (para cima, para baixo, para a frente, para trás, para a direita, para a esquerda) e em passar do plano de conjunto para o enfoque do grande plano, uma preocupação constante em definir as posições relativas aos protagonistas e os seus gestos, em assinalar indicações de movimento, em dar a localização dos acidentes de paisagem, em restituir a atmosfera de sombras ou luminosidade variável, uma permanente manutenção de níveis de dialogia explicativa e de fusão do real com o metafísico. (...) um contexto orgânico de identidade».
(7) Segundo Vasco Graça Moura, «estruturalmente a Comédia oferece 3 variações do labirinto:
A prisão-labirinto do Inferno; O labirinto de um só curso do Purgatório; As esferas e almas em círculo do Paraíso».
(8) Na tradição popular medieval, «revéis» são anjos neutros que não tomaram partido nem por Deus, nem por Lúcifer.